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Produtor rural, invista em gestão e não em televisão

Pense em um indivíduo desconfiado... Esse indivíduo é o produtor rural! E não é para menos, o camarada frequentemente é bombardeado por promessas e produtos milagrosos que “vão resolver sua vida”, melhorando a produtividade de sua lavoura, reduzindo seus custos de produção, aumentando suas margens e toda aquela ladainha da “solução imperdível”. Uma situação, na verdade, não exclusiva da agricultura, mas comum a boa parte das relações de consumo se for ver bem.

 

É que na agricultura existe um agravante, o contexto de produção, extremamente dinâmico e sujeito a diversos fatores. Se determinada solução não funcionar, para o provedor do produto, tecnologia, o que for, encontrar um culpado pelo insucesso não é tarefa difícil. Fique a vontade para escolher uma das opções a seguir: “a) você não aplicou na época correta; b) você não aplicou nas condições ideais; c) tinha que aplicar em conjunto com outro produto; d) o operador não aplicou corretamente; e) seu time não está preparado para absorver minha solução; f) seria necessário uma etapa de estruturação antes..." E por aí vai. Essa sistemática “caleja” o produtor e o torna um sujeito ressabiado, que desenvolve duas características: a casca “anti-papo de vendedor” e a síndrome de Tomé – “ver pra crer”. Nada mais do que natural.

 

Neste contexto de insegurança em relação aos fornecedores e suas soluções, os programas de fidelidade agrícola se apresentam como um mitigador de riscos das relações de benefício-custo. Os sistemas são semelhantes aos segmentos de cartão de crédito ou de companhias aéreas, onde parte do valor gasto é convertido em pontos, que podem ser trocados por produtos ou serviços. Na agricultura o caso de maior sucesso é a Rede Agroservices da Bayer, uma plataforma que oferece desde eletroeletrônicos, eletrodomésticos, peças de vestuário até serviços agronômicos e de gestão. É diante desta oportunidade de ganho e pluralidade de opções, que faço duas considerações.

 

Primeiro que cerca de 80% dos produtores – estimativa nada científica, sem qualquer base estatística, obtida do “levanta a mão aí quem conhece” de palestras que ministro, portanto, cuidado na divulgação em cascata – desconhece programas de pontos dedicados ao agro. Eles investem milhares, quando não raro milhões de reais, que poderiam ser convertidos em produtos ou serviços e simplesmente... Nada! Puft! Não existem.

 

Segundo que muitas vezes, quando existe o câmbio de pontos, o processo é utilizado para se obter televisores, celulares, cafeteiras e um outro tanto de “coisas legais”, enquanto há uma gama de produtos e serviços a disposição que podem auxiliar na gestão técnica e econômica da atividade. Aí que me pergunto: É mais interessante uma TV nova ou uma “patrulha percevejo” na roça, monitorando pragas e evitando perdas? Um celular moderno ou mapas de agricultura de precisão que podem otimizar a aplicação de insumos? Uma cafeteira ou sistema de gestão de custos que pode auxiliar a substituir – isso quando existe – o caderno de anotações?

 

Sei que no fim da história “os pontos são meus e faço o que quiser com eles” e que você pode estar pensando “o Botão só está escrevendo este artigo pois oferece serviços na plataforma”. Sim, ambas considerações são verdadeiras. Mas o que quero provocar, na verdade, é uma reflexão quanto o uso dos recursos “alternativos” oriundos da própria atividade. É possível melhorar a gestão do negócio agrícola sem a necessidade efetiva de “colocar a mão no bolso”. Se der certo, dá para comprar vários televisores e celulares com a diferença. Sem dúvidas a conversão é bem melhor. Se der errado, não se gasta e ainda é possível parcelar o produto desejado em "10x sem juros" em diversas lojas. Portanto produtor rural, invista em gestão e não em televisão.

 

 

 

 

 

 

João Rosa (Botão)

Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP, apresentador no canal Botão do Excel no YouTube e professor do Pecege.

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